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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Corrupção

Um quarto do PIB português é muito dinheiro. Faz muita falta ao orçamento de Estado.

Imaginem agora o que é os portugueses gastarem por ano o equivalente a um quarto do seu PIB em corrupção. Querem construir uma casa, querem algum serviço do Estado, querem segurança, querem uma escola.

Corromper e ser corrompido é a lógica em vigor no Afeganistão, como um "cancro", afirma a notícia do Público. 2 500 milhões de dólares são gastos por ano no Afeganistão em SUBORNOS. Como é possível um país assim funcionar? Ter instituições credíveis e sentir-se um país? Onde metade da população já pagou subornos a pelo menos um funcionário público? 160 dólares é o valor médio do suborno. E o rendimento anular per capita é 425 dólares.

Não dá, não funciona. Pelo menos nos padrões pelos quais nos guiamos. É muito dinheiro deitado ao lixo, por muito que me digam que ele continua a girar na economia. Os afegãos não conseguirão a estabilidade tão cedo. E ainda para mais esta notícia rebenta nas vésperas da conferência dos doadores em Londres. Como é possível alguém arriscar-se a investir num país assim? As mudanças no Afeganistão precisam de ser de fundo, estruturais e não podem ser impostas pelo exterior; podem ter a ajuda do resto do mundo, mas a iniciativa e a intenção tem que ser nativa e sentida por quem lá está. Nunca alguém seguirá uma pessoa que considera um ocupante ilegítimo da sua terra. É natural que 54% da população ache que as organizações internacionais no seu país estão lá para enriquecer - principalmente se ponderarmos que os polícias, os juízes e os políticos são os que mais lucram com este "cancro que se mestatizou", como refere António Maria Costa.

Mudanças estruturais urgem num país que está a colapsar-se, mesmo apesar de alguns resultados que McChrystal tem afirmado começarem a surgir. Temos que aguardar consequências da nova (e inteligente, eu diria) estratégia de Obama para o país. No entanto, não podemos esquecer-nos das palavras do Presidente dos EUA: não estamos no Afeganistão para construir um país novo e deixá-lo uma democracia funcional; estamos lá para derrotar terroristas islâmicos perigosos e criar as condições mínimas para que estes não regressem ao poder. Compreendo a posição de Barack Obama, mas inquieto-me com os eventuais resultados a médio prazo. Aquela zona do mundo dá-me dores de cabeça.