sexta-feira, 12 de março de 2010

Separatismo e Soberania

Ontem, quando falava em Direitos Humanos, disse que tinham surgido, na imprensa mais recente, dois casos especialmente ilustradores de como este tema concentra muita atenção. O primeiro foi o de Suu Kyi, impedida de participar nas eleições em Myanmar, e que apresentei ontem.

Hoje, queria focalizar a nossa atenção numa questão de Direitos Humanos particularmente interessante (para mim) e delicada, uma vez que vamos roçar num dos princípios mais controversos do Estado Nação westfaliano: a soberania.

Kosovo, Irlanda do Norte, País Basco, Abcácia, Taiwan, Tibete: todos são casos sérios de separatismos e de lutas com os Estados centrais precisamente por causa desse conceito de soberania. A opinião pública vai divergindo entre a simpatia pelos lutadores da sua causa e a antipatia por aqueles que querem desmembrar a unidade nacional. De facto, esta ambiguidade existe. Existe, porque não há um menu que determine quando é que realmente se está a ser subjugado num Estado ao qual se sente não pertencer ou quando as exigências separatistas não passam de uma pulsão terrorista. As opiniões dividem-se, as Relações Internacionais e a Ciência Política não são muito esclarecedoras e a pouca nitidez nesta fronteira turva uma visão científica desta realidade. Optando por diferentes escolas do pensamento, temos diferentes formas de analisar essa mesma realidade da soberania e do separatismo.

O Dalai Lama, líder espiritual budista, acusa a China de querer eliminar aquela religião e pede apenas uma autonomia alargada para o Tibete, que não considera pertencer ao território chinês. A China, por seu lado, acusa-o de ser separatista e, num altura em que se comemora a ocupação chinesa da região, reforça a presença policial e militar, adoptando medidas dissuasoras de qualquer tentativa de rebelião popular ou manifestação no sentido de contestar aquela mesma data.

Conquistadores e conquistados. Soberania. Direitos Humanos. Repressão. Integridade territorial. História. Tradição. Cultura. Autodeterminação. Inúmeros são os conceitos que uma discussão desta natureza traz. O único factor bastante claro no meio de toda esta confusão é uma oposição nítida e compreensível entre conjunto de indivíduos que pretendem ser independentes porque pensam não fazer parte de uma Nação que sentem exterior a eles e, por outro lado, um governo que quer assegurar a integridade do seu território, uma das suas funções primordiais, para não perder o estatuto de Estado unificado e que, para tal, usa a força que lhe é atribuída constitucionalmente, limitando os direitos de uma parcela dos seus habitantes em nome da totalidade e da união da sua população.

É esta a realidade no Tibete e é esta a realidade em muitos outros sítios. O que é certo é que os meios utilizados na prossecução desse mesmo fim, as motivações que subjazem aos separatistas e o percurso histórico de cada país variam e ditam, dessa forma, matizes que complexificam a reflexão e um posicionamento científico sério e ponderado face a cada um deles, afastado de uma perspectiva puramente política e de interesses nacionais. E aí, sim, está o problema – afastar a Ciência das influências do exercício prático da política externa.

(A propósito da China, encontrei também esta notícia)

quinta-feira, 11 de março de 2010

O mesmo teatro de sempre (I)

São duas questões de democracia. Esta palavra, que ficou tão cara para a contemporaneidade, continua a centrar muito do debate político a nível internacional e frequentemente surge para discussão e reflexão.

O primeiro caso é o de Suu Kyi. Como já fui escrevendo aqui no blogue por várias vezes, esta activista pelos Direitos Humanos é o rosto da luta pelas questões democráticas na muito pouco democrática República de Myanmar. Neste país liderado por uma Junta Militar, que, contudo, tem mostrado alguns sinais (simples cosmética?) de abertura, eleições, manifestação de opinião e oposição são realidades muito pouco conhecidas e enraizadas.

No entanto, como dizia, alguma abertura tem vindo a ser revelada pelos líderes militares daquele país asiático. Nomeadamente, ao fim de vinte anos, possibilitando a existência de eleições. Se estas serão livres, democráticas na plena acepção do termo e justas já é outra discussão que podemos levantar. Sinceramente, não acredito que o sejam e penso que só alguém muito ingénuo poderá fazê-lo, uma vez que a tradição ditatorial da antiga Birmânia está muito enraizada e naturalmente que as elites no poder não se arriscariam a uma esmagadora derrota que as expulsaria da liderança.

Há vários meses, desde o incidente do americano que se refugiou na casa de Suu Kyi, se vem discutindo a condenação ou o prolongamento da condenação desta senhora. O cerne desses prazos não são só o afastamento da activista, mas principalmente incapacitá-la de participar no dito escrutínio. Recentemente, e confirmando todas essas suspeitas, foi anunciado que Suu Kyi não poderia candidatar-se. Porquê? Porque simplesmente foi criada uma nova lei eleitoral, que tem vindo a ser tornada pública aos poucos, que define que quem tenha sido condenado por um tribunal esteja proibido de se candidatar. Ora, como se sabe, a senhora passou 15 dos últimos 21 anos detida, o que implica, obviamente, uma condenação.

Como adianta o Público de ontem:

“Suu Kyi fica assim oficialmente excluída de representar o seu partido, a Liga Nacional para a Democracia, algo que a sua detenção já tornava inviável. A Nobel da Paz está confinada à sua casa de Rangum, onde só pode fazer telefonemas vigiados, não tem acesso à Internet e todas as visitas são controladas.

A opositora fica também impedida de tentar chegar a chefe de Estado por ter sido casada com um cidadão estrangeiro e porque os seus filhos têm passaporte do Reino Unido. Muitos outros membros da Liga Nacional estão entre os 2000 presos políticos da Birmânia, pelo que não poderão candidatar-se.”

Para terminar esta primeira questão (a segunda será publicada amanhã), resta dizer, como prova de sustentação do que defendi, que em 1990, nas últimas eleições, Suu Kyi arrecadou 392 dos 485 lugares do Parlamento, tendo sido o resultado recusado pelos generais da Junta.

Vinte anos depois, o mesmo teatro?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ahmadinejad

Ahmadinejad tem umas tiradas famosas... Desde a negação do Holocausto a comentários sobre Israel, ele é, no Médio Oriente, o equivalente ao nosso europeu Berlusconi.

Agora, foi a vez de subscrever a posição conspiracionista do 11 de Setembro.

terça-feira, 9 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher

No Afeganistão, uma das políticas que o General McChrystal mais defendia era a aproximação da sociedade civil afegã a todos os intervenientes estrangeiros naquela guerra no seu país, no seu território. É uma das formas mais eficazes de contra-insurreições de grupos violentos como os Taliban. Uma vez que ontem foi o Dia Internacional da Mulher, não poderia deixar de fazer aqui uma referência ao papel das mulheres nessa mesma aproximação, como se pode ler neste artigo. Atendendo ao facto de que esta intervenção no Afeganistão está a permitir a muitas mulheres libertarem-se dos padrões machistas daquela sociedade, frequentando, por exemplo, a escola, aqui fica a minha homenagem às mulheres. (Mas só porque afinal também existe um Dia Internacional do Homem!)

segunda-feira, 8 de março de 2010

O Irão e a questão nuclear



Já escrevi aqui muito sobre a questão nuclear iraniana. Todos os que se interessarem por esta problemática podem ler um artigo mais desenvolvido que escrevi para o Jornal Defesa e Relações Relações, disponível aqui.

Sobre a Reforma de Saúde nos Estados Unidos...

... um belo cartoon do Political Graffiti:

domingo, 7 de março de 2010

Hipocrisia no Iraque

Poder-se-á dizer que o Iraque voltou à normalidade, como li em alguns artigos por estes dias? Depois de umas eleições que só mataram cerca de 40 pessoas, podemos falar em normalidade para aquelas bandas? A mim parece-me muito forçado. Um país que foi invadido e que viveu, até há bem pouco tempo (se é que ainda não continua) dentro de uma guerra durante 7 anos não pode falar de normalidade após meia dúzia de semanas ou porque tiveram lugar umas eleições com os traços daquelas que acontecem por todo o lado no Ocidente.

Ora, esta era a principal ideia que gostaria de frisar aqui hoje. Em segundo lugar, queria dizer que, desde que me interesso por esta região do mundo, considero desnecessária a invasão do Iraque em 2003. Foi uma abordagem unilateral e coerciva completamente descabida. É que tão descabida que nem em temos de interesses política externa americana ela se consegue conceber. Ao contrário do Afeganistão, cuja situação é completamente distinta, apesar de ambos os conflitos se enquadrarem na "luta ao terrorismo", o Iraque não constituía qualquer tipo de ameça à segurança social. Não tinha armas de destruição maciça. E se tivesse? Alguém já atacou a Coreia do Norte? O Irão?

Decorreram, no Iraque, as tais eleições de que falava em cima. Foram as segundas desde a invasão e com melhores resultados em termos democráticos do que as anteriores, onde o boicote dos sunitas pôs todo o sufrágio em causa. Desta vez, nada disso aconteceu. Morreram algumas dezenas de pessoas e outras dezenas ficaram feridas, mas, afinal, é aquilo a que nos habituámos a ver no Médio Oriente, certo? Quem dá atenção a atentados suicidas no Paquistão? Quem passa do título de uma notícia sobre atentados no Iraque? Ninguém. Já quase não há mensagens por detrás destas acções, que se vulgarizaram e que, como tudo que se vulgariza, perde valor enquanto acto isolado que capta a atenção do outro.

Não perco muito tempo com os resultado per se. Não interessam os resultados quando todo o processo foi conduzido à maneira Ocidental, formas cujos iranianos foram praticamente obrigados a aceitar. Até que ponto é legítima esta vontade dos americanos e muitos europeus em exportar estes padrões. De facto, Saddam não era um inocente líder com as mãos limpas de sangue da sua população que violentamente governava. Agora, sejamos honestos: quantos líderes têm sangue nas mãos e não são invadidos? Quantos são aqueles cujas populações denunciam e clamam por ajuda do exterior que nunca chega? Por que é que isto acontece? As Relações Internacionais reflectem sobre estas questões e estudos aprofundados nesta área da intervenção militar e da democratização do Médio Oriente e da Ásia Central seriam bem-vindos. 

Mas precisaremos mesmo deles para continuar a hipocrisia que envolve toda esta questão do Iraque a ponto de dizer que a normalidade chegou ao Iraque? 

sábado, 6 de março de 2010

Teerão aperta o cerco

Teerão tem vindo a aumentar a pressão sobre a oposição. Desde a repressão das manifestações, à detenção, às execuções, tudo tem servido de motivo para o regime se defender da sua própria população. A notícia do NYT dá agora conta do encerramento de duas publicações de opositores de Ahmadinejad, que eram das últimas que circulavam pelo Irão. Segundo o Público, também um realizador iraniano conhecido internacionalmente e próximo do líder da oposição foi detido, juntamente com a sua família e alguns convidados que estavam em sua casa nesse momento, sem que os media estatais tivessem dado, até agora, conta do sucedido.

Para mim, todos estes sinais que recebemos no Ocidente daquele país são reflexo de um certo desespero iraniano. O regime tem consciência da amplitude do seu isolamento internacional e sabe perfeitamente que as manifestações mais frequentes são contra si e não contra os Estados Unidos, estrangeiros pouco afamados há várias décadas no país da Revolução de 1979.

No entanto, todos os iranianos defendem, regra geral, o desenvolvimento do programa nuclear. Isso significa, para o regime, que seria um erro abdicar desse trunfo perante uma sociedade insatisfeita e daí que não ceda perante o Ocidente e as inúmeras ameaças de sanções económicas. Só a China continua por convencer, mas não sabemos até quando. Na verdade, os chineses temem que Israel comece a fartar-se da ameaça iraniana na sua vizinhança e não avise ninguém quando planear atacar os centros nucleares do Irão. Isto originaria, naturalmente, uma escalada da violência no Médio Oriente. Uma violência que nem os países daquela região nem os restantes que dela dependem energeticamente estariam interessados. A China morre de medo que o Irão feche as torneiras do petróleo para o seu país (daí que Clinton tenha assegurado a Arábia Saudita como substituto dessas importações em caso de bloqueio do Irão). Mas nós sabemos como é o feitio isrealita, que ataca sem avisar e põe tudo em pratos limpos - não porque seja um herói, mas porque tem as costas portegidas pelos Estados Unidos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ucrânia - Rússia


Dejá vu?

Des-nuclear II

"President Barack Obama’s speech in Prague in April 2009 signaled a profound shift in US thinking about nuclear weapons and imparted renewed momentum to the nuclear disarmament movement. No supporter of this cause has any illusions about the obstacles that lie in the path of its realization. Indeed, a number of otherwise sympathetic analysts believe that the ambition is unrealizable, no matter how desirable it may be. Yet even if a world free from nuclear weapons is impossible, there is little dispute that a reduction in the number of such weapons is good in its own right."

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O des-nuclear

Barack Obama vai rever a sua política nuclear.

Numa altura em que as questões nucleares estão no centro da agenda mediática internacional, esta revisão de Obama pode ser fundamental para reorientar toda a preocupação com esta problemática.

Coreia do Norte, Paquistão e Irão são as grandes preocupações - cada um por seu motivo e com gravidades distintas. No entanto, o que está em discussão é a desnuclearização de um mundo ao mesmo tempo em que algumas partes desse mundo procuram nuclearizar-se, não vá dar-se o caso desse mundo sem armas nucleares nunca acontecerem e eles perderem a vanguarda em termos de segurança e o respeito que uma arma atómica exige.

«"De acordo com as mesmas fontes, a proposta de Obama para a “Revisão da Postura Nuclear” (um documento que todos os Presidentes elaboram) prevê uma substancial redução da capacidade nuclear norte-americana, através da não substituição e/ou desmantelamento do seu inventário já recolhido e que permanece em armazém.

“Ficará muito claro no documento que buscamos uma redução dramática do nosso arsenal – na casa dos milhares de armas”, referiu um dos participantes na revisão, citado pelo diário “The New York Times”.» (Público de 1 de Março)

As intenções são boas, a opinião pública também me parece que será favorável, assim como muitos líderes ocidentais. No entanto, os EUA nunca o começarão sozinhos, têm que enfrentar algumas divisões domésticas quanto à percepção desta questão, já para não falar do Irão que pode colocar tudo em causa...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os -istões II


"O Tajiquistão é outro país que se vai vergando aos ventos imperiais - mas com uma reviravolta de cariz islâmico radical.
(...)
O Tajiquistão sofre aproximadamente trezentos tremores de terra e terramotos por ano, uma metáfora muito apropriada para a sua política. O regime atrozmente corrupto de Rahmonov [reeleito no passado Domingo] está quase hipotecado a Moscovo. Cerca de vinte mil soldados russos estão estacionados no país e são empresas russas que operam as barragens hidroeléctricas mais estratégicas do país.
(...)
Mas o Tajiquistão é também uma ponte crucial para a revitalização das rotas comerciais sino-iranianas que ligam Xinjang, Och, Duchambé e Herat (no Afeganistão) ao Irão, com o qual o Tajiquistão partilha uma afinidade étnica e linguística."

In O Segundo Mundo, Parag Khanna, pp. 114-115

terça-feira, 2 de março de 2010

Eu disse...

Eu disse que o senhor estava a tentar. Hoje disse que a sua prioridade número um é mesmo a Europa. Vamos ver até quando vai aguentar não ter Moscovo como o preferido...


(Também é notícia a queda do governo de Iula Timochenko que será amanhã alvo de uma moção de censura, a qual perderá por falta de apoios. Pelo menos a incerteza e esta relativa instabilidade política não se arrastará mais.)

Os -istões

Para quem se interessa pela Ásia Central, acreditem que os "-istões" lá pelo meio dão que pensar e funcionam quase como aqueles insanos cubos mágicos.

Afeganistão, Paquistão, Turcomenistão, Quirguizistão, Cazaquistão, Tajiquistão e Usbequistão quase que parecem partes de um complicado trava-línguas. Para mim, além de travarem a língua, travam também o raciocínio se quisermos compreender bem esta super complexa região do globo.

Falo hoje nisto porque foi notícia do Público que as eleições no Tajiquistão foram chumbadas pelos observadores internacionais, apesar da pouca importância dada a esse facto pela comissão eleitoral nacional. O que é facto é que a comissão da OSCE apontou muitas falhas graves em aspectos muito básicos durante o escrutínio que teve lugar no país.

Naturalmente, a Comunidade de Estados Independentes, organização da antiga URSS, não concordou com estes resultados e aplaudiu de pé a reeleição daqueles que são pró-russos, que ultrapassaram a fasquia dos 70%. Contra a CEI está, também naturalmente, a oposição dos vencedores, o partido islâmico.

Sobre estes países da Ásia Central, assim em termos muito introdutórios mas elucidativos, aconselho a leitura de "O Segundo Mundo", de Parag Khanna, que já citei cá no blogue, e que traça um quadro contextualizador de todos estes países. A ler.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Media e Democracia


As mudanças estruturais vividas nos últimos 25 anos transformaram, naturalmente, a realidade: a individuailização, a secularização, a economização, a estetização e várias outras dinâmicas referidas por Maria João Silveirinha promoveram a “deslocação dos media para o centro do processo social” (Blumer, Kanvanagh, 1999 apud Silveirinha, s/d), tornando o acesso à informação dependente daqueles meios e criando uma comunidade “massmediada” (Silveirinha, s/d). E se prestarmos atenção a alguns pressupostos das democracias actuais, nomeadamente o da participação cívica e o da escolha racional, percebemos a importância de um público informado e interventivo nesse sistema que o acolhe.

Assim, a democracia surge como a “única forma de regime cuja legitimação implica necessariamente a comunicação” (Blumer, 1987 apud Ibidem), onde os media em geral funcionam como um vigilante do governo, sendo apelidados de “Quarto Poder”, “contra-poder” ou “cão de guarda” desse mesmo sistema democrático. Efectivamente, a liberdade de imprensa é, na actualidade, considerada um dos principais pressupostos de uma sociedade aberta, na qual os seus objectivos passam por transmitir uma imagem rigorosa do mundo , dar a possibilidade ao público de reagir ao que se passa nesse mesmo mundo e “dar voz à opinião dos cidadãos e não apenas aos detentores de outras formas de poder”. (Patterson, 2002: 35) Daí que formas patológicas de jornalismo tenham consequências na saúde da democracia e da vivência cívica. Também Hermenegildo Borges reconhece o valor e a ligação entre estes dois pólos, quando afirma que:

“Importa reconhecer que, nos regimes de democracia política, o jornalismo se funda nos princípios constitucionais da liberdade de expressão e, consciente do seu lugar e função na sociedade, procura nortear o seu agir por normativos deontológicos que sublinham o propósito de independência face ao poder político.” (Borges, 2010)

Este autor cita mesmo Ayala, defendendo uma similitude entre o discurso parlamentar e o género editorial, acrescentando que o parlamento e a imprensa acabam por ser, nas sociedades democráticas, “indispensáveis, complementares e coordenados”. (Ayala, 1984 apud Borges, 2010) Parece, então, evidente esta relação íntima entre política e comunicação. Compete-nos agora aprofundar essa relação.

(Excerto de trabalho pessoal)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sinais contraditórios


São sinais democráticos contraditórios que vêm de um continente que eu já apelidei aqui no blogue de paradoxo.

Enquanto lia as notícias internacionais do dia, deparei-me com a boa notícia de que o Tribunal da Colômbia tinha recusado a possibilidade do actual Presidente, Álvaro Uribe, se recandidatar para um terceiro mandato. À semelhança do que se passa na maioria das democracias ocidentais, a Presidência de um país pode ser ocupada apenas por dois mandatos, tendo como objectivo evitar que alguém se "cole" ao poder, como vemos muitas vezes acontecer onde tal não existe - caso flagrante de alguns países africanos e também latino-americanos.

No entanto, alguns minutos mais tarde, enquanto lia as notícias, outra me chegou às mãos (neste caso, ao monitor do computador) e mostrava assim como este continente é, efectivamente, o continente do paradoxo. A Venezuela decidiu abandonar a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos. É certo que temos noção das constantes violações dos direitos humanos naquele país, especialmente em questões de propriedade e de expressão. Contudo, Chávez não achou piada ao relatório de 300 páginas que dava conta disso mesmo e acusou a Comissão de estar a ser instrumentalizada politicamente pelos Estados Unidos, querendo denegrir e prejudicar a imagem da Venezuela.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ashton mete o pé na argola

A Alta Comissária e Vice-Presidente, Catherine Ashton, voltou a irritar os europeus.

"A ordem de prioridades da chefe da diplomacia europeia está a provocar uma irritação crescente entre os governos dos Vinte e Sete: em vez de assistir – e presidir – a uma reunião dos ministros da Defesa da União Europeia, hoje, em Palma de Maiorca, Catherine Ashton preferiu assistir à tomada de posse do novo Presidente ucraniano, Victor Ianukovich, em Kiev." (In Público on-line, 25-02-2010)

Muitos diziam que a figura desta senhora muito raramente ia marcar a agenda mediática. No entanto, Ashton enganou quem tal vaticinou, uma vez que tem sido notícia com alguma frequência, apesar de não ser pelos melhores motivos. Esta opção de não comparecer a uma reunião marcada há mais de um ano (havendo já comparações com Solana que nunca faltou a este encontro) parece descabida do ponto de vista estratégico e dos interesses da União. Em vez de presidir à reunião dos Minsitros de Defesa da UE, com os quais discutiria sobre as implicações da entrada em vigor do Tratado de Lisboa, a baronesa foi a Kiev assitir a tomada de posse do Presidente Ianukovich.

É uma questão de estabelecer prioridades. Mas dá a entender que a senhora não tem assim uma grande pontaria para essa hierarquização. Pela altura do Hiti, que acabei por nunca comentar, o apoio de União Europeia passou completamente despercebido - falou-se do envio de ajuda de Portugal, de Espanha, da França, etc, mas nunca da UE. E a figura de Ashton deveria ter vindo mais à baila por essa altura. Deslocou-se a Washington para falar com Hillary Clinton, mas nem os pés pôs no Hiti, ao contrário da Secretária de Estado Americana.

Que papel global querem então para uma União Europeia que não se faz ouvir globalmente? Que actor importante pode ser este, estando sempre escondido nos bastidores? É esta Europa que o Tratado de Lisboa queria construir? Não. E por muito que os líderes acabem por não ter a amplitude de decisão que gostariam ou que o seu lugar implicaria, sendo em parte suplantados por uma enorme equipa de eurocratas que circulam por Bruxelas, o que é facto é que influenciam, tomam decisões, fazem escolhas, estebelecem hierarquias, prioridades, metas. Ashton, para mim, voltou a falhar. Falhou porque não incarnou os princípios de uma Europa globalmente activa e visível que o Tratado que deu à senhora baronesa o lugar queria criar.

Se juntarmos a isto a invisibilidade de von Rompuy, ainda outro dia duramente criticado e insultado por eurodeputados, podemos começar a ponderar a entrada da UE numa espiral descendente de importância e influência num mundo onde se compete por estar presente, por ser visto e por influenciar. A UE está a perder o jogo. E ou estes senhores mudam de atitude perante os seus postos ou poderá ser tarde de mais mais para voltar às luzes da ribalta internacional.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O dia de hoje


Só três apontamentos rápidos sobre o que está a ser hoje noticiado sobre o mundo:

1. Ianukovich tomou posse como Presidente da Ucrânia, mas teve que enfrentar uma série de cadeiras vazias no Parlamento, uma vez que a Primeira-Ministra daquele país (e o seu partido), que continua a recusar-se a aceitar a vitória do adversário e a abdicar do seu lugar no executivo, não estavam presentes na cerimónia. De destacar ainda o discurso do empossado, que diz apostar na promoção de uma Ucrânia neutra no cenário internacional, aproximando relações com os EUA, a UE e a Rússia. Ianukovich quer mesmo dar-se bem com todos...

2. A Índia e o Paquistão retomaram hoje as conversações, desde a sua suspensão em 2008 após os ataques em Bombaim. Apesar de não se esperar grandes desenvolvimentos neste primeiro encontro, qualquer forma de diálogo entre estas duas potência nucleares asiáticas é muito positivo, uma vez que podem contribuir em muito para a estabilidade daquela região do mundo.

3. O governo afegão afirmou controlar já Marjah, uma região tradicionalmente ocupada e influenciada pelos Taliban. É mais um sinal de sucesso e de inversão da situação.

A surpresa de Ianukovich

(De regresso - problema resolvido)

Talvez por estar consciente das críticas que lhe eram feitas por ser um candidato à Presidência da Ucrânia que afastaria o país do seu lado europeu em detrimento do russo, Viktor Ianukovich fará a sua primeira visita oficial ao estrangeiro à cidade de Bruxelas e não, como se poderia pensar, a Moscovo.

Das duas uma: ou o senhor realmente está interessado em aproximar a Ucrânia da Europa, pelas inúmeras vantagens que este país de Leste daí retira, o que me parece muito provável; ou como Moscovo tem tanta confiança neste seu aliado, não se importa sequer que o Presidente opere uma viagem de cosmética a Bruxelas e deixe a Rússia para segundo lugar, quando, na realidade, é o Kremlin que habita nos seus planos estratégicos mais importantes.

A minha questão permanece. Será possível a Ucrânia dar-se com Deus e com o Demónio? (sem quaisquer acepções religiosas da expressão) Não terá que escolher um?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dia Internacional...

Se o Dia é Internacional, ora nós, os internacionalistas, têm sempre algo a dizer!

Sempre fui contra o Dia Internacional da Mulher. Não sou machista nem feminista. Sou pela igualdade. Igualdade que não significa mais benefícios para as mulheres pela sua fragilidade ou outro argumento, uma vez que se é igual, é igual e ponto.

Mas, depois de um alerta da Sara, descobri isto. É verdade, meus senhores e minhas senhoras: existe o Dia Internacional do Homem! E definido por uma Organização Internacional que merece o meu crédito. Assim sendo, vou passar a "festejar" o Dia da Mulher, uma vez que já não é, então, uma desigualdade; desde que me felicitem a 19 de Novembro de todos os anos...

Seria o 5.º em 50 anos...

A Turquia é uma ponte entre a Europa e o Médio Oriente; entre o secularismo e o Islão. Poderá ser a chave para uma cooperação ou coexistência pacífica entre estes dois grandes blocos que muitos dizem inconciliáveis.

A entrada da Turquia para a União Europeia poderia ser uma vitória daqueles que acreditam que um Estado como o turco se tem saído bem, mantendo pacificamente duas culturas e duas civilizações no seu território.

Uma notícia do Público de hoje dá conta de uma série de detenções de altas patentes do exército, acusadas de conspirar contra o governo e de lançar o caos naquele país para justificar um golpe de Estado que deporia o Partido da Justiça e Desenvolvimento. Destaco: a eficiência na eliminação desta ameaça; a preocupação com a "saúde democrática" de um candidato à União; a eliminação de um possível foco que originaria uma instabilidade muito perigosa entre duas civilizações cujas relações não têm andado muito salutares.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Para os internacionalistas

Para os internacionalistas:

http://www.youtube.com/watch?v=VwUGErW8mv4&feature=related

A Aliança Quebrou-se

Do Afeganistão vêm indicações contrárias: por um lado, o sucesso da operação em Marjah indica que a Aliança de forças que lutam contra os Taliban estão a recuperar a iniciativa, perdida há já vários meses.

Por outro lado, o governo holandês acabou mesmo por se dissolver por causa das divisões quanto à permanência naquele cenário bélico. O governo caiu, mas a decisão está tomada: os holandeses vão mesmo retirar quando planeado, ou seja, em Agosto. Este sinal pode ser suficiente para que os Taliban recuperem a esperança de derrotar a Aliança ocidental, apesar de estarmos a falar de um contingente de 2 000 homens. No entanto, não podemos esquecer também a falta de solidez de algumas presenças europeias que podem seguir percursos semelhantes...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Direito ou dever? Até onde pode ir a protecção?

Em Portugal, está em voga falar de liberdade: liberdade que muitos confundem com libertinagem. Liberdade de opinião, de expressão e de outras coisas, tudo relacionado com a eterna discussão dos media e das estruturas políticas. Até onde vai a liberdade de cada uma das esferas e onde termina cada uma delas são reflexões importantes.

Mas não em termos nacionais neste espaço. Trago, contudo, uma notícia das páginas internacionais do diário The New York Times: a República Checa proibiu um partido político de extrema-direita, pela primeira vez desde a queda do Comunismo, nos finais da década de 80:

«The court described the party as xenophobic, anti-Semitic and homophobic and said it shared the ideology of Hitler’s Nazi party and maintained links to openly white-supremacist and racist groups. “This ruling needs to be understood as a preventive one, to maintain the constitutional and democratic order in the future,” Judge Vojtech Simicek said in issuing the ruling.»

Estas são as razões que subjazeram à proibição do dito partido. Levantam-se questões de liberdade vs. libertinagem e da confusão entre as duas. Deverá ter direito a existir um partido nestes moldes? Não experessará ele a voontade de alguns indivíduos e constituirá uma forma legal da sua representação? Ou não pode aceitar-se algo democrático que funcione contra a democracia? Até que ponto as premissas deste grupo contrárias à natureza dessa mesma democracia justificam a medida?

A Europa Central e de Leste tem vindo a preocupar-se com o ressurgimento de grupos desta dimensão, uma vez que a crise económica actual promove, efectivamente, as visões mais radicais - repare-se que foi precisamente esse o cenário que antecedeu a ascensão de ditadores como Hitler. A extrema-direita ilude os eleitores que, desesperados por soluções, acabam por apoiá-los. Mas não será legítimo? Legal? É-o, efectivamente. Só que esta visão maquiavélica de os fins (a resolução dos problemas individuais) justificarem os meios (toda a acção de partidos extremistas que desrespeitam condições básicas da dignidade humana e dos seus direitos mais fundamentais), podem trazer problemas mais graves e sérios do que aqueles que tentam resolver.

Até que ponto é legítima uma decisão paternalista como esta ? Ou deveremos mesmo zelar pela sanidade da democracia nos moldes em que ela se tem desenvolvido?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Help!

Um professor de Relações Internacionais de Berlim, Klaus Segbers, dizia numa aula que é impossível alguém produzir conhecimento científico nas Relações Internacionais sem se "afiliar" por uma das várias correntes do pensamento dentro desta disciplina. Eu temi. Não as conhecia suficientemente bem para me munir da perspectiva de uma e produzir novo saber. E tenho que confessar que continuo sem saber para qual me virar. Eu sou, podemos dizer, um mix de várias teorias. Tenho, contudo, a noção de que um dia isso não será mais possível e que, pela coerência da minha produção, por enquanto pseudo-científica, tenho que adoptar uma delas como minha matriz, por muito limitador que isso possa parecer para que me ler agora.

É nesta demanda que tenho andado nos últimos dias, quase como quem procura uma roupa que lhe assente bem. É claro que reconheço em tudo o que isto implica uma certa imaturidade científica da minha parte. É ponto assente e não fujo a essa asserção. Por outro lado, procuro igualmente um tema para a minha tese de doutoramento. Vários vão surgindo na minha cabeça e o problema é a enorme quantidade de áreas temáticas que vão congeminando dentro da minha mente e que não me deixam, nem por um segundo, sossegado.

Relações transatlânticas, relações transpacíficas, Médio Oriente, Ásia Central e Balcãs estão em grande força. Sim, são poucos e já resultado de uma grande selecção, porque no início a lista era ainda maior. Atendendo à minha área de especialidade, estudos políticos de área, tenho que me circunscrever geograficamente, como se depreende.

Este blogue e outros artigos que vou escrevendo são o meu balão de ensaio - onde vou experimentando diversas temáticas e assuntos para ver onde me sinto mais feliz a estudar. Quem acompanha de perto este blogue, e sei que conto com um punhado de fiéis leitores, sabe que me dedico a vários temas, mas que, bem espremido, a coisa anda ali à volta daquelas áreas que enumerei acima, com ligeiras excepções...

Lanço, então, as seguintes questões para todos aqueles que queiram ajudar-me: qual das áreas parece mais interessante para ler uma obra, por exemplo? Qual delas surge como aquela em que não se importariam de dedicar três anos das vossas vidas? Eu sei que é muito pessoal, mas é da discussão que surgem as ideias e das ideias que surgem as decisões. Qual vos parece aquela em que me sinto mais à vontade quando escrevo no blogue? Qual pensam ser a que tem menos atenção da comunidade académica actual?

Dêem as vossas opiniões, escrevam comentários, enviem-me e-mails e... ajudem-me! Quero decidir-me o quanto antes, porque este meu medo infundado do custo perdido que significará a escolha de um e só um está a tolher-me o cérebro! Digam de vossa justiça, mesmo que não percebam nada destes assuntos! Apenas o que acham mais giro! Todas as opiniões e visões são válidas!

Até onde a vénia?

O Irão avisou que se tinha tornado um Estado nuclear. Não em termos de armamento, mas "apenas" nuclear, uma vez que tinha alcançado os 20% de enriquecimento de urânio. Em dia de festejo, pareceu um aviso, uma ameaça, ao Ocidente. Europeus e americanos começaram logo a ponderar reforços das sanções contra aquele país, mas claro que a Rússia e mais ainda a China não quiseram ser muito duras com aquele claro desrespeito por tratados internacionais.

Várias questões se levantam neste momento em que me preparo para investigar sobre a crise do nuclear no Irão: afinal, numa altura em que Obama tenta desnuclearizar o globo, vem um Irão constrói uma bomba? Que perigos para o mundo advêm daí? Influenciará isto as negociações que a Coreia do Norte parecia disposta a fazer? Qual a melhor forma de lidar com um Irão quase nuclear? Intensificar as sanções? Até que ponto? Inclui-lo na comunidade internacional? Mas como?

Para mim, actualmente, esta é das questões mais importantes em termos de segurança internacional, a par da guerra do Afeganistão contra os Taliban e a Al-Qaeda. Este problema tem que ser resolvido e sem medos de acusações de uma Ocidente "hegemonizador". O Tratado internacional sobre as armas nucleares foi assinado por aquele país e as regras são para cumprir - todos, de preferência. O Irão tem-se portado mal e alguém tem que lhe puxar as orelhas...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dúvidas na Ucrânia


Tymoshenko prometeu contestar os resultados eleitorais e depois de alguns dias sem qualquer declaração pública, remetendo-se ao silêncio, acabou por fazê-lo; Ianukovich disse à adversária para reconhecer a derrota e anunciou que as suas prioridades passarão pela dívida pública, pelo reforço (já esperado) das relações com a vizinha Rússia e pela criação de novos laços com a União Europeia. Para mim, algo se afigura pouco claro - sei que é possível construir pontes com ambos os lados das fronteiras ucranianas, mas muitas vezes elas poderão desembocar em posições divergentes e incompatíveis e o Presidente terá que escolher qual delas atravessar. E a escolha de uma implica o afastamento da outra.

A líder da Revolução Laranja não descansa: acusou o adversário de promessas mentirosas e recusa-se a demitir-se voluntariamente, prosseguindo a sua intenção de contestar os resultados, exigindo a recontagem em 1200 assembleias de voto. E nem a congratulação de Obama a Ianukovich demoveu a líder do governo ucraniano, que parece irredutível. A par dos EUA, vários outros países europeus têm reconhecido a vitória do antigo mecânico, uma vez que as eleições foram acompanhadas de perto por várias instituições do continente, que garantem a autenticidade dos resultados.

Apesar de tudo, Tymoshenko tem evitado chamar os seus eleitores para a rua, no sentido de evitar uma ainda maior instabilidade, o que é bastante razoável, atendendo à sua posição enquanto líder daquele país.

A dúvida continua: Ianukovich foi reconhecido como Presidente da Ucrânia pela Comissão Eleitoral do seu país, com uma vantagem de 3,48% relativamente à adversária e tudo parecia resolvido; no entanto, uma notícia do Público on-line dá conta que o Tribunal Superior Administrativo ucraniano suspendeu os resultados. O recurso da ainda Pirmeira-Ministra será analisado por um colectivo de juízes, que darão o seu parecer até 27 de Fevereiro, não impedindo, contudo, que Ianukovich seja empossado como Presidente dois dias antes.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Coreia do Norte pediu perdão. Não porque estamos em tempo quaresmal, até porque menos de 2% da população é cristã, mas sim devido às suas políticas monetárias mais recentes. A notícia pode ser lida aqui.

Um enviado da ONU também se mostrou bastante contente depois de uma rara visita a Pyongyang e provavelmente levará consigo alguma intenção daquele regime de voltar às negociações sobre o seu nuclear.

É importante reflectirmos sobre estas duas questões. São dois sinais muito claros de abertura, ainda que relativa, de um regime fechado e individualista que nunca foi muito de cooperações com a sociedade internacional. Várias questões poderão ser levantas sobre esta mudança na sua política, mas penso que a resposta fundamental vem de um dos posts que coloquei há uns dias e que se prende com a miséria de um país que, sozinho, não está a conseguir resistir. Um qualquer regime político, especialmente um fechado como é aquele de Kim Jong-Il, não consegue fazer frente a fome generalizada, a graves lacunas de segurança e de possibilidades de emprego, além dos efeitos perversos que as política monetárias tiveram na sociedade norte-coreana.

Estou com grandes expectativas relativamente ao desenvolvimento deste processo.

Україна



Lia eu outro dia: "A Revolução Laranja marcou o fim das desculpas da Europa. A Ucrânia continua a ser demasiado grande e pobre para aderir à UE - mas já não é demasiado soviética." (Parag Khanna, O Segundo Mundo)

Ora, o resultado das últimas eleições neste país relativizou muito esta frase que me parecia inspiradora. De facto, a adesão da Ucrânia à UE é quase um "tabu" e o autor desmistificou-a com aquela sentença. No entanto, a Ucrânia falou a duas vozes no Domingo passado; a diferença que separou os dois candidatos foi muito ténue e implica sérias reflexões sobre o país.

Lia nesse mesmo livro alguma da História recente da Ucrânia. Desde a Revolução Laranja que se afastou da Rússia e se tornou mais "europeia", ou seja, aproximou-se de uma oportunidade de integrar aquilo que o autor chama de "Primeiro Mundo". Dizia ainda Khanna que os ucranianos queriam ser europeus, mais do que pró-russos, mas as últimas Presidenciais furaram-lhe parte da teoria.

Os ucranianos estão, nitidamente, dividos - e sejamos claros: eles estão dividos ente a "subserviência" aos russos ou aos europeus, porque é disso, em última análise, que se trata. Desde o seu afastamento da Mãe Rússia, que viram o preço do petróleo e do gás importados triplicar; mas também viram os aspectos aliciantes de uma aliança pró-ocidental. E esta divisão reflecte-se, numa altura em que a crise põe em causa tanto o lado europeu como o lado russo, nos resultados eleitorais.

 

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Trigémios


 “Os três impérios juntos [EUA, UE e China] começam a assemelhar-se a trigémios unidos nos quais a ruptura de uma artéria causará danos em todos.”

(Parag Khanna, O Segundo Mundo, p. 23)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Comissão ao trabalho (II)

«"Estamos a assistir a uma coligação dos hipócritas", reagiu Daniel Cohn-Bendit, o líder franco-alemão dos Verdes, dirigindo-se aos líderes dos maiores grupos. "Dizem a Barroso: não acreditamos em ti mas votamos em ti." De facto, acusou, "eles não apoiam a Comissão, só apoiam os seus comissários respectivos". Para Cohn-Bendit, "a maior parte dos comissários não tem determinação, visão ou ambição". "A Comissão toda junta é uma soma de zeros que faz um mais: esta é a nova matemática da Comissão Barroso", ironizou.» (Público, 10 de Fevereiro de 2010)

Será, na realidade, a nova Comissão uma soma de zeros? Ou estarão mesmo à altura das exigências deste período conturbado?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Comissão ao trabalho (I)

Dia 9, o Parlamento Europeu aprovou a nova Comissão de Durão Barroso.

O artigo do Público dizia que tinha havido apenas o percalço da Comissária da Ajuda Humanitária, a búlgara que foi trocada por outra búlgara, pelos vistos mais competente. Mas para mim, isso não é verdade, uma vez que, apesar de esta ter sido a única substituição de facto na equipa de Barroso, as "entrevistas" que o Parlamento Europeu realizou aos vários propostos para a Comissão resultaram em grandes polémicas, como é o caso de Catherine Ashton, no qual vários deputados puseram em causa as capacidades e a visão europeísta desta britânica. Isso também foi um percalço. Assim como com a holandesa que passou da concorrência para as telecomunicações e que teve que ser ouvida uma segunda vez à porta fechada.

Mas os treze comissários conservadores, oito liberais e seis socialistas acabaram por ser aprovados e Durão Barroso diz que está com vontade de começar já o (duro) trabalho que tem pela frente - na realidade, tal como ele queria: sem qualquer sombra dos cargos que o Tratado de Lisboa criou. Barroso é mais lido na imprensa internacional que von Rompuy ou Ashton.

Muitos criticam esta Comissão pela falta de visão e por estarem as pessoas erradas nos sítios errados. Considero prematura essa posição; no entanto, tenho que dar a mão à palmatória em casos flagrantes como o de Olli Rehn, que teve um desempenho que considero muito bom à frente do alargamento e que passou para a pasta da economia, sem dar grandes certezas aos eurodeputados.

Na realidade, esta Comissão tem um muito árduo trabalho pela frente, tendo que lidar e criar soluções para o espaço comunitário sair da crise, enfrentando situações delicadas economicamente como a da Grécia ou mesmo a espanhola e a portuguesa.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Por que será?


Por que será que a Coreia do Norte tem mostrado alguma abertura na discussão sobre o seu nuclear e em várias outras questões onde se mostra disponível para dialogar com a comunidade internacional? Simpatia? Benevolência? Cansaço? Multilateralismo? Moral?

Uma pista:

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

China - que brilho? (VII)

Em jeito de conclusão a esta viagem de vários dias pela China, chamo a atenção para dois artigos do Jornal Público On-line, que poderão ser lidos aqui e aqui.

O primeiro é relativo a uma questão já aflorada neste blogue e que se prende com o relacionamento com Taiwan. Em entrevista, um investigador e politólogo de Taipé desenvolve uma perspectiva muito curiosa relativamente à posição do seu país num meio caminho entre a China e os EUA. De facto, visto por esse prisma, aquela pequena ilha tem a oportunidade de arpoveitar o balanço do desenvolvimento chinês para promover o seu bem-estar económico, mas tem que ter cuidado com as pretensões de Pequim para com o seu território; por outro lado, aliar-se mais aos EUA, que a usam como peão naquela região do mundo, traz vantagens principalmente em termos de defesa e garante da sua autonomia. Dizia Yen:

"Os EUA fornecem armas para garantir que Taiwan não vai para a mesa de negociações com a China numa posição de fraqueza. Isso é bom. Está em marcha um processo de reconciliação, e se Taiwan não tiver capacidade militar pode ficar sob domínio da China muito facilmente. Os EUA também querem garantir que Taiwan não entrará na órbita chinesa, mas que continuará a ser um peão de Washington, que o poderá usar como leverage contra a China. Ninguém sai a perder.
(...)
Não creio que Taiwan possa ser um país neutral, porque não é um Estado na tradição de uma nação soberana – mas pode manter uma posição neutral, não se aproximando tanto da América como no passado e mantendo a sua independência face à China. É certo que a tendência é para que Taiwan se integre mais no mercado chinês e beneficie do seu crescimento económico. Acho que Taiwan vai tentar manter-se no centro, usando o trunfo chinês contra os EUA e o trunfo americano contra a China. Reforça deste modo a capacidade de sobrevivência face às duas superpotências. Se não souber jogar bem, arrisca-se a ofender uma das partes, o que não será bom para os interesses taiwaneses."


Complexa e com uma lógica geoestratégica fundamental, a questão de Taiwan promete continuar a dar que pensar. E, nesse seguimento, temos ainda o segundo artigo do Público, que reflecte sobre a inflexão da posição chinesa no mundo: Taiwan, Armas, Google, Yuan, Comércio, Economia, Direitos Humanos, EUA e Tibete marcam a agenda internacional e as respostas a estas "crises" constituem sinais claros que a China tem noção do seu peso no mundo e que um certo fervor nacionalista pode estar a consolidar-se no Reino do Meio, exigindo o reconhecimento da sua posição no xadrez internacional. Também esta evolução das atitudes e comportamentos da China merecem a nossa atenção e um acompanhamento sistemático.

E assim termino a minha incursão pela Ásia Oriental. Quis trazer aqui questões, mais do que respostas; reflexões, mais do que soluções. Atendendo à complexidade do próprio país e do seu relacionamento com o mundo, já para não falar das previsões e projecções para o futuro, é importante que conheçamos o maior número de indicadores e factos para podermos moldar alguma posição face à China e à sua interacção com a comunidade internacional, no sendido de compreendermos mais uma das peças que é este gigante puzzle do mundo actual.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

China - que brilho? (VI)

TAIWAN: Calcanhar de Aquiles dos chineses ou ponto nevrálgico da sua capacidade militar e diplomática, Taiwan continua a ser uma situação mal digerida por toda a elite política chinesa e, quem sabe, também pela sua população.

Recentemente, ela foi mais um motivo para o azedar das relações entre a China e os Estados Unidos, depois de estes terem aprovado a venda de armas no valor de 6 biliões de dólares a Taiwan. A China enfureceu-se. Da última vez que isto aconteceu, em 1992, os chineses vingaram-se, vendendo mísseis de médio alcance ao Paquistão. Desta vez, e ainda sem nenhuma decisão tomada relativamente à venda de F-16 àquela ilha, a China já anunciou medidas de retaliação contra os EUA, nomeadamente a empresas americanas que lhes fornecem sistemas de armamento e aviação (como a Boeing), a par do cancelamento de vários programas militares partilhados pelos dois, sanções comerciais e ainda a possibilidade de Hu Jintao boicotar a cimeira sobre segurança nuclear agendada para Abril. No entanto, os chineses têm que ter cuidado com medidas como estas, uma vez que podem contrariar regras da OMC, que, por sua vez, poderá adoptar sanções contra a China, o que será muito negativo para este país, atendendo à sua dependência do comércio mundial - está a dar um tiro no pé, como dizia um artigo do Financial Times.

Alguns especialistas apontam estas medidas como teste a Obama, no sentido de perceber como é que o Presidente dos Estados Unidos vai responder a esta situação; por enquanto, a Administração americana tem continuado a sua oposição à China, não abdicando desta venda a Taiwan, pressionando-a em relação ao Irão, a questões de liberdade como a levantada pelo Google, etc.

O que a mim me parece pacífico é que nenhum país pode, de facto, com todos estes condicionalismos que apresentei nos últimos dias, ter a pretensão de dissolver a situação internacional actual, substituindo uma unipolaridade por outra unipolaridade. Não podemos esquecer outros actores importantes, como a União Europeia, por muito que não se defenda a sua importância em termos do contexto internacional, mas que não deixa de ser um contrapeso à China e com ainda alguma capacidade de lançar cartas. Muito menos se pensarmos que muitos advogam que este país é um “desafiador” aos Estados Unidos, quando nem sequer conseguem resolver um problemazinho caseiro com uma pequena ilha ali ao lado plantada.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

China - que brilho? (V)

DEMOGRAFIA: Na China, têm surgido preocupações com os milhões de homens chineses que, daqui a alguns anos, não terão mulheres para casar. Esta notícia, que pode parecer quase um faits divers, é de extrema importância para as relações internacionais. Não podemos esquecer-nos que a China assenta muito da sua influência mundial em termos demográficos e esta revelação, lógica no seguimento das políticas adoptadas pelo país, traz uma reflexão necessária e mais crítica relativamente ao papel do Reino do Meio no futuro.

Os responsáveis políticos já anunciaram relaxar a política do filho único, mas poderão não ir a tempo, até porque são inúmeras as restrições que se mantêm. Política, estratégica e economicamente fundamental para qualquer país, especialmente para um da natureza da China, a população deveria ter mais atenção e, com medidas daquela natureza, uma sociedade envelhecida, com uma taxa de renovação muito diminuída, eminentemente masculina e sem capacidade reprodutiva não conseguirá, mais uma vez, guiar o mundo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

China - que brilho (IV)

AMBIENTE: E porque nem tudo é mau na China, cabe também neste espaço que dediquei especialmente a este país uma pequena nota relativamente à ocupação do primeiro lugar em termos mundiais na produção de turbinas eólicas e de outros dispositivos de “energias verdes”, o que lhe dá uma clara vantagem em termos competitivos e de desenvolvimento, que podem contrariar, em parte, a minha visão sobre a economia deste país.

De facto, esta área é estratégica e está muito longe dos sapatinhos de plásticos que exportam ao desbarato; seria, esta sim, uma China competitiva (em termos justos) com o resto do mundo e na vanguarda da tecnologia e do desenvolvimento. Pessoalmente, considero esse o caminho que a China deveria seguir, pois, como penso que é comummente aceite, não é com sapatos de plástico e brinquedos sem qualidade que alguém poderá destronar os Estados Unidos. No entanto, Barack Obama anunciou já a sua intenção de promover a investigação e a indústria “verde” no sentido de ultrapassar os seus “arqui-inimigos”, o que, caso queira realmente, vai conseguir com relativa facilidade.

Há ainda uma outra questão que não podemos dissociar desta e que é a da investigação. O clima que se vive na China, de opressão e fechamento de todo o sistema, não é propício à inovação, à criatividade, fundamentais para a investigação e o desenvolvimento. Pelo contrário, os EUA batem-na aos pontos. No entanto, há um pequeno senão para os americanos: é que enquanto eles redobram esforços para não estarem dependentes nesta matéria dos chineses, várias são as multinacionais que se implantam em território sino para desenvolverem a sua actividade na área, nomeadamente empresas dinamarquesas que têm investido lá muito capital.

Ora, ainda que a China se preocupe menos com o ambiente do que muitas potências, como a Alemanha ou outras, o que é certo é que se preocupa muito com a sua economia e, essencialmente, o emprego. Se esta é, realmente, uma boa forma de atrair investimento estrangeiro e criar locais de trabalho, então a China não poupará esforços neste sentido. E os Estados Unidos vêem a sua tarefa dificultada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

China - que brilho? (III)

ECONOMIA: Muitos têm afirmado e vaticinado o fim dos Estados Unidos pela sua enorme dívida em títulos do tesouro em relação à China, que aquilo só pode acabar com o afundanço do primeiro e a ascensão da segunda como a potência do século XXI. Mais uma vez reitero a minha oposição.

Lia outro dia sobre os valores das relações comerciais entre os dois países; eles demonstravam que essas mesmas relações têm vindo a intensificar-se na última década: aumentaram as exportações dos EUA para a China e as da China para os EUA (um aumento de cerca de 94 biliões de dólares em 1999 para 409 biliões em 2008 do total das trocas). Mas mesmo apesar de os EUA terem uma balança comercial deficitária com aquele país, a natureza dos produtos trocados é muito diferente – e fundamental, eu diria.

Na lista dos produtos trocados, podíamos ler: maquinaria eléctrica e equipamento, material de aviação, equipamento médico, ferro, aço e alumínio, sementes de óleo e químicos orgânicos que se deslocavam dos EUA para a China; no sentido contrário vinham também maquinaria eléctrica, brinquedos e jogos, calçado, plásticos, etc. Ora, o valor acrescentado deste tipo de produtos é bastante diferente, pois não podemos comparar esse valor relativo a um avião de plástico chinês com um qualquer componente para um avião real.

Mais, em termos de ferro, aço, alumínio e produtos agrícolas, mostra alguma dependência da China face ao exterior de um produto que, ainda que sem grande valor acrescentado porque primário e não transformado, é muito importante para a sua sociedade – matéria-prima para trabalharem e alimentação.

E em termos de dependência face às exportações, não podemos ignorar o facto de os EUA serem, na realidade, o seu primeiro destino, do qual dependem quase 20% das exportações chinesas. E 20% de 1 428 biliões de dólares anuais em exportações é um enorme volume. Ou seja, por muito que os chineses possam abanar com os títulos do tesouro americano, os americanos também podem abanar com as suas alfândegas, pois fechando as portas às importações chinesas, esta economia iria sentir um efeito devastador. Além disso, temos que levar em conta que o grande hiato existente, em termos comerciais, entre ambos os países também se deve em grande medida às constantes desvalorizações artificiais levadas a cabo pelos chineses e contra as quais, obviamente, Barack Obama tem pressionado os representes sinos, cujos produtos tão baratos se tornam um bem muito competitivo especialmente em épocas de crise.

Em suma, as duas economias estão intrincada e inevitavelmente relacionadas, o que impede que a China pouco mais possa do que fazer algumas ameaças. Mas mesmo assim, os Estados Unidos não correm o risco de lhe mostrar muitos cartões vermelhos, em termo de direitos humanos, por exemplo, porque o preço a pagar também seria elevado, sem prejuízo desta relativa tensão que actualmente se tem sentido entre as duas potências.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

China - que brilho? (II)

IRÃO: Os Estados Unidos perseguem a sua luta contra um Irão nuclear. Depois de muitos meses a aguardar pacientemente uma resposta positiva de Teerão, a “indulgência” para com aquele país parece estar a chegar ao fim e, nesse sentido, a diplomacia americana pressiona toda a comunidade para que imponham mais sanções ao Irão, para que este sinta na pele o preço do seu programa nuclear, num mundo que tenta “desnuclearizar-se”. A Alemanha, também preocupada com a situação dos opositores ao regime de Ahmadinejad também seguiu o mesmo caminho e as suas empresas começam a retirar lentamente daquele país.

Já com a China, a coisa parece mais complicada. Não muito hostil a um regime que tão bem compreende (não fosse tão semelhante ao seu termos de resistência à democracia e às liberdades dos seus cidadãos), a China e o seu lugar no Conselho de Segurança dão algumas preocupações aos EUA, que podem ver as suas medidas sancionatórias proibidas pelos chineses. Também não podemos ignorar o importante facto de que o Irão é o fornecedor de petróleo da China e que a sua delegação na ONU, no máximo, abster-se-á de votar; nunca o fará favoravelmente.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros sino disse preferir aguardar alguns sinais de abertura dos amiguinhos iranianos, o que deixou os americanos à beira do colapso e, como resposta, disseram aos chineses que caso eles bloqueassem o programa de sanções, teriam que enfrentar economic insecurity and diplomatic isolation”, nas palavras de Hillary Clinton.

A própria Rússia, conhecida aliada de Teerão, está disposta a contrariar este país nas suas intenções nucleares. Falta só a China, que está difícil de convencer. Não se importando com Direitos Humanos (dos opositores ao regime que têm sido executados e perseguidos) ou com o Direito Internacional (pelos sucessivos incumprimentos em termos nucleares), mas apenas com o seu fornecedor de petróleo, a China está a enfrentar grandes pressões. Veremos como reage.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

China - que brilho? (I)

A China tem constado da agenda mediática internacional dos últimos dias e por vários motivos.

Já aqui referi por várias vezes a minha descrença relativamente à posição dos chineses enquanto challengers dos EUA na “liderança” da comunidade internacional.

Vou publicar uma série de artigos nesta lógica, a começar já hoje.

Tibete: a China tem reforçado a sua inflexibilidade quanto aos pedidos de autonomia dos tibetanos. Não abdica de qualquer parte de soberania (será a soberania divisível?) naquele espaço que continua a defender como seu. Os tibetanos, pacificamente, vão-se resignando ou manifestando sem grande impacto, depois da carnificina que foram as manifestações sangrentas de há uns tempos. O Presidente dos EUA pretende encontrar-se com Dalai Lama – a China já o avisou que não ficará contente com tal acto e que tal prejudicará as relações entre os dois países. Mais, qualquer país sofrerá consequências se dialogar com aquele que a China considera um perigoso separatista.

Bem, na realidade, isto é tudo menos ilógico; faz parte de um pensamento que o governo de Pequim tem consolidado e é algo de expectável e coerente da sua posição. E quem esperava por alguma abertura daquele país depois dos Jogos Olímpicos (qual acontecimento messiânico que salvaria os 2 biliões de chineses) desengane-se, pois estão tão fechados como até então.

Repare-se que os EUA não consideram o Tibete um país independente, mas sim parte da China – tal como a comunidade internacional o entende assim. Contudo, a sua preocupação, manifestada através do encontro do qual Obama não abdicará, prende-se com os Direitos Humanos e o respeito por aquela parte da população. A intenção é a promoção do diálogo e da solução pacífica e conforme os Direitos Humanos e não o reconhecimento da autonomia da região.

A situação é delicada; os EUA, tal como a comunidade internacional, não pedem mais do que um tratamento justo dos tibetanos; a China defende o que é seu, sempre com aquele medo tão característico (não será razoável?) de que um aumento de autonomia hoje signifique o desmembramento amanhã.

Assim, a China, mais do que uma economia forte e crescente (até quando?), é um país que ameaça desagregar-se (lembremo-nos de Xinjang) sem um Estado “umbrella” que possa tudo unificar através da força.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

North Korean Arms Shipment Said to Be for Iran


É com estes amiguinhos (o Irão) que países como a Coreia do Norte conseguem ir contornando, apesar do fazerem com muitíssima dificuldade, as sanções internacionais. O Irão precisa das armas e a Coreia do Norte de as vender; ninguém vende ao Irão (teoricamente) e ninguém compra à Coreia, logo esta é uma solução prática e viável. Assim vai-se armando o Irão e vai-se enriquecendo a Coreia. Falamos de 35 toneladas de vários tipos de armamento e desta frágil (muito frágil) segurança mundial. Como poderá o mundo solucionar estas questões? Estará o mundo irremediavelmente condenado a tapar um buraco e logo outro ser aberto no seu casco?